Get Adobe Flash player
Home Tijolaços-Leonel Brizola Governo da decepção

Governo da decepção

A confissão do presidente Lula, feita há dias, de que seu governo não fez nem 1% do que se propusera a fazer na campanha eleitoral não foi infelizmente um ato de humildade. O governante que, como nenhum outro desde Vargas, recebeu tanta carga de esperanças do povo brasileiro, inebriado pelos afagos que recebe do sistema dominante, não se julga na obrigação de mudar métodos e políticas que o levam a um resultado tão pífio – na sua própria avaliação! – quando se aproxima de completar um quarto de seu mandato.

A conclusão do que disse o próprio Lula é, obrigatoriamente, a de que em 99% seu governo segue sendo tal como era o Governo Fernando Henrique, contra o qual elegeu-se com o voto da esmagadora maioria da população. Aliás, o Governo Lula vem fazendo o que nem seu antecessor teve a coragem de fazer.

Tal como Fernando Henrique, Lula, desde o primeiro dia, dedicou-se a fazer aquilo que, em campanha, jamais disse que iria fazer. Não foi pela vontade do povo brasileiro que seu Governo dedicou todas as suas energias e força política a taxar os aposentados, arrochar os trabalhadores públicos e privados, anistiar sonegadores da previdência, adular o “mercado”, aumentar os juros e os impostos e endividar mais ainda o país. A vontade do povo brasileiro era ter mais escolas, mais salário, mais saúde, mais direitos, mais empregos, e mais soberania para nosso país.

O dinheiro público, em lugar de estar sendo destinado a programas de recuperação econômica, na criação de fontes de trabalho em projetos de educação, de moradias, etc., tem outras prioridades: pagar os especuladores e subsidiar os lucros de grandes empresas – a maioria estrangeira – que se adornaram do país com as privatizações. Não tivemos o espetáculo do crescimento, nem o fim do tempo das vacas magras. O que temos é recessão, desemprego e mais aperturas para a grande maioria.

Estas infidelidades de Lula ao povo brasileiro, que nos primeiros tempos produziam perplexidade vão, agora, espalhando pelo país clima de decepção generalizada. A cada dia surge um novo desapontamento, ao ponto de muitos já nem mais esperarem algo de bom de um Governo que, em quase um ano, não tem nada, exceto o marketing do Fome Zero para mostrar ao país! Demagogia à parte, os números do IBGE mostram que a população está é comprando menos comida, porque não tem salários!

E o que o impediu de fazer o que ele mesmo reconhece que não fez? Teve tudo: maioria no Congresso, apoio da mídia e da opinião pública. O que faltou, competência ou vontade? Ou será que ambos?

A arrogância e pretensão do governismo e o apoio da mídia não podem evitar o fato de que diante das parcelas mais lúcidas da população e entre as forças que sustentaram a eleição de Lula, este descontentamento vai caminhando para tornar-se uma repulsa frente à traição aos compromissos que o levaram ao poder.

Os exemplos da história recente estão aqui e em toda parte da América Latina. Governantes que chegam ao poder em nome dos direitos da população e, no Governo, passam a negar aqueles direitos, seguem, inexoravelmente, o caminho que, passando pela perplexidade e pela decepção profunda, leva à indignação e à revolta. Democracia, se é respeito ao voto, é mais ainda infidelidade àquilo que o voto expressa: a vontade de um povo. Trair esta vontade, portanto, significa trair a democracia.

 

Leonel Brizola

Presidente Nacional do PDT

 

INFORME PUBLICADO PELO PDT / FAP

O Globo, 5ª feira, 16 de outubro de 2004