Get Adobe Flash player
Home Tijolaços-Leonel Brizola Insatisfação crescente

Insatisfação crescente

Completa-se na próxima segunda feira, um ano desde que todos fomos às urnas eleger Lula presidente de nosso país. Quantas esperanças, quantos anseios o povo brasileiro colocou ali, ao votar em alguém que, pela sua origem e pelos compromissos assumidos ao longo das suas campanhas, entre os candidatos, um símbolo de mudança para o povo brasileiro.

Este foi o verdadeiro sentido do voto popular. Mas, em lugar da realização destes anseios, o que o povo brasileiro constata é a continuidade e, até o aprofundamento do modelo neoliberal, ao qual o eleitor pensou estar dizendo não ao votar em Lula.

Desde os primeiros dias depois da vitória, começaram a surgir sinais de que não seria assim. Um núcleo formado em torno do presidente eleito, com influências misteriosas, passou a gerir a formação do governo – e depois o próprio Governo – longe não apenas da vontade popular, mas dos próprios partidos que sustentaram a eleição do Presidente. Não eram projetos ou políticas públicas que determinavam as escolhas, mas composições da politicagem, a cooptação de quadros, e a nomeação de ministros que não fossem senão governistas incondicionais, dispostos a abandonar compromissos e convicções para permanecerem nos cargos.

E quais foram as causas prioritárias de um governo que se iniciava, contando com um apoio político e popular como poucos tiveram? Nenhuma outra, senão manter e aprofundar todas as políticas de Fernando Henrique Cardoso, fazendo aquilo que, antes, o PT e toda a oposição não lhe permitíamos. Uma espécie de Tony Blair tupiniquim. Assim, taxou-se os aposentados, arrochou-se ainda mais os servidores e os trabalhadores em geral, entregou-se o Banco Central ao ex-presidente do Banco de Boston, aumentam-se os impostos sobre a classe média, subsidia-se as multis que se apropriam das empresas privatizadas, paga-se mais juros aos especuladores e obedece-se mais ao FMI que com FHC.

Se, no campo econômico este governo só trouxe recessão, desemprego e queda na renda do trabalho, na área social o que promove é uma mistura de assistencialismo, marketing e ineficiência. Ninguém discorda da necessidade de programas de emergência, mas sabemos que não haverá soluções sustentáveis sem a criação de fontes de trabalho, programas de educação, habitação e de saúde e saneamento. Nem mesmo as emergências estão sendo cuidadas com um mínimo de eficiência porque, passado quase um ano, não se fez senão declarar intenções. Este governo faz marketing, mas não fez uma sala de aula sequer.

A decepção do povo brasileiro começa a aparecer até mesmo nas pesquisas. É o que acontece com governos que se mostram ineptos e infiéis a seus compromissos. A própria confiança que Lula recebeu do povo brasileiro vem sendo corroída. A partir daí, o tempo político pode correr muito depressa.

As advertências são fatos concretos e preocupantes. Na Bolívia, multidões demonstraram que, em apenas 13 meses, um governo eleito pode se inviabilizar. Antes, o governo De La Rua, na Argentina teve o triste fim que todos sabemos. O povo brasileiro tem o direito de exigir que seu Governo seja fiel aos compromissos que assumiu. Pois atentar contra a democracia, isto sim, é receber os votos e governar praticando as mesmas políticas que condenava.

 

Leonel Brizola

Presidente Nacional do PDT

 

INFORME PUBLICADO PELO PDT / FAP

O Globo, 5ª feira, 23 de outubro de 2003