Decisões suspeitas
Poucas pessoas tomaram conhecimento da obscura transação feita enquanto o país e a própria imprensa entravam no semi-recesso de fim de ano. Apenas a Folha de São Paulo noticiou com destaque que, num contrato assinado fora do Banco, o BNDES perdoou a dívida de R$ 554 milhões da empresa norte americana AES, referente aos juros do empréstimo de R$ 1,2 bilhão que a multinacional recebeu para comprar a Eletropaulo e outras empresas elétricas no Governo FHC e que não pagou. Numa palavra, está inadimplente.
Só o perdão deste valor – que representa, para termos idéia, metade de tudo o que foi investido em educação, saúde e em todos os serviços públicos federais no ano passado – já seria algo de estarrecer, de deixar estupefato e perplexo qualquer cidadão de bem deste país. Mas este negócio estranho e incompreensível foi mais além. Em lugar de, como previa o contrato, retomar a empresa para o poder público, o BNDES não só cancelou os juros devidos como transformou em participação acionária mais da metade do valor da dívida original, tornando-se dono de 54% do capital da EAS Brasil, mas manteve os americanos no controle da empresa! Quer dizer, pegaram o dinheiro, ficaram com a Eletropaulo e várias geradoras, não pagaram, tiveram os juros perdoados e ainda controlam tudo! Que negócio! Imaginem se uma família que não consegue pagar uma simples conta de luz teria perdão desse tipo? Sua luz seria simplesmente cortada! E as empresas brasileiras, por vezes sufocadas pelo próprio Governo, como é o caso da Varig?
É possível pensar que um contrato desse valor e nessas condições mais que favorecidas, ainda mais feito como dinheiro público do BNDES – que controla o Fundo de Amparo ao Trabalhador – possa ter sido feito assim, na obscuridade, num feriadão, a ponto de a papelada ter sido levada à Teresópolis, para o Sr Carlos Lessa, presidente do Banco, assinar, enquanto nos escritórios de advocacia da multi, segundo relata a Folha, estouravam-se garrafas de champagne? Será possível admitir que o Presidente Lula, e os ministros Dirceu e Palloci, que tudo controlam e em tudo mandam, não soubessem de nada? Ou, ao contrário, o lógico é pensar que eles sabiam, deram ordens para que se o fizesse e, simplesmente, eximem-se de prestar esclarecimentos públicos, num país que se debate com a crise e o desemprego. A esta altura, esperamos, o Ministério Público deve estar requisitando estes documentos. Não estamos mais nos tempos de Geisel, quando uma negociata como a da compra da Light pôde ser abafada e ficar impune. Agora, o Governo tem que dar explicações.
Trata-se de gente muito poderosa e influente. Não só a AES é uma grande multinacional quanto também tem grandes relações nos círculos de poder americanos. É como o velho ditado popular: tem couro de jacaré, tem rabo de jacaré, tem dente de jacaré, então como não é jacaré?
Leonel Brizola
Presidente Nacional do PDT


