A traição foi premiada
O vergonhoso troca-troca de cargos que foi a dita reforma ministerial, além de paralisar por quase dois meses uma administração já inepta como a de Lula, teve outro aspecto profundamente revelador da natureza deste governo e de suas prioridades políticas.
Refiro-me, de um lado, à grosseira demissão do Ministro da Educação, o ex-governador Cristovam Buarque – um homem de histórica fidelidade à causa educacional em nosso país – e, de outro, o enorme empenho de Lula e de sua entourage em manter o Sr. Ricardo Berzoini no Ministério.
Vejam: Cristovam Buarque – agora se sabe – era sabotado pelo núcleo do Governo, que paralisava todas as suas iniciativas de reforma do ensino público, em nome de cortar ainda mais os já ridículos gastos com educação e, também porque o ministro, ao contrário do Governo e do próprio Presidente, insistia em lembrar os compromissos populares que levaram o PT ao poder. Já Berzoini, até janeiro passado um ilustre desconhecido, foi recompensado por praticar – sem piedade ou remorsos – a traição a estes mesmos princípios, cassando direitos de aposentados e de servidores públicos, até com alguns requintes de sadismo, como o caso das filas desumanas a que submeteu, por dias a fio, idosos de mais de 90 anos e outros aposentados.
Aí está, concretamente, o que caracteriza o Governo Lula. Como falar em coerência, em fidelidade à população, quando é o próprio Presidente quem abjura de seu passado – tal como fez Fernando Henrique – ao negar até mesmo ter sido de esquerda? A verdade é que vivemos um momento em que, mais do que com o centrão de Sarney e a reeleição de FH, as práticas políticas são regidas pelas vantagens, pelos cargos, pelo fisiologismo, enquanto, seguindo o exemplo presidencial, idéias e escrúpulos são mandados às favas.
Enquanto os políticos traem seus compromissos, eleitores e partidos para se agarrarem às beiradas do poder, o núcleo autoritário do Governo, sob o comando indisfarçável de José Dirceu, manipula as ambições dos políticos, sabota partidos que resistem ao avassalamento e pavimenta o caminho das pretensões totalitárias de eternizarem seu reinado.
Os grupos dominantes daqui e de fora, festejam o Governo Lula, como os holandeses festejaram Calabar. Outros presidentes que lhes foram úteis, no passado, também mereceram tal apoio, pelo menos enquanto serviam aos seus propósitos. A diferença é que este, ao contrário dos demais, foi o depositário infiel das melhores esperanças da população, e as atirou no lixo, assim que chegou ao poder. A história, porém, sempre reserva a esses traidores o mesmo destino que eles próprios deram aos seus compromissos com o povo brasileiro.
Leonel Brizola
Presidente Nacional do PDT
Informe Publicado Pelo PDT / F.A.P.
O Globo, 5ª feira, 29 de janeiro de 2004


