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Autoritarismo e Arrogância

 

         A atitude prepotente, autoritária e insólita de Lula ao expulsar do Brasil o correspondente do The New York Times, jornalista Larry Rohter, nada tem a ver com a defesa da soberania brasileira ou da dignidade do cargo presidencial. Faz tempo – no governo Lula isso acontece seguidamente – que estrangeiros dão todo o tipo de opinião sobre tudo no governo brasileiro e, aliás, até dizem o que o nosso governo deve fazer em matéria de pagar juros, facilitar a especulação financeira, entregar as riquezas nacionais. Quando agentes do FMI e do Tesouro americano vistoriam os cofres da Fazenda, dizem o que querem e elogiam a política neoliberal de Lula, está tudo certo. Quando a sra. Asma Jahangadir, da ONU, diz em pleno gabinete presidencial, que pedirá inspeção internacional sobre o judiciário brasileiro, numa evidente violação de nossa soberania, Lula aplaude e apóia. Mas, se um jornalista várias vezes premiado, que vive há anos no Brasil, que é casado com uma brasileira, publica o que todos sabem, aí é uma “ofensa a dignidade nacional”.

         Eu fui uma das diversas pessoas ouvidas pelo senhor Rohter. Disse a ele o que vi, com meus próprios olhos. Quando fui vice na chapa presidencial encabeçada por Lula em 98, e fiz diversas viagens com ele, em um jatinho e com outras pessoas a bordo, impressionou-me a maneira como consumia bebidas destiladas. Fraternalmente, como homem mais velho, que teve oportunidade de conhecer os males do consumo excessivo de bebida, falei algumas vezes com ele sobre isso, sem sucesso. O jornalista comentou que vinha falando com dezenas de pessoas, da situação e da oposição, para tentar traçar um quadro dos problemas que assolam o Governo brasileiro. Para ter publicado algo sobre o assunto, certamente ouviu o mesmo de várias outras fontes que convivem ou conviveram com Lula, ainda que algumas delas possam  não ter coragem de assumir publicamente o que, repito, todas as pessoas nos meios políticos sabem sobre os hábitos do Presidente.

         Presidentes e líderes políticos beberem, como quaisquer cidadãos, é característica pessoal, exceto quando passa a interferir no seu comportamento. É algo muito difundido e nunca foi considerado ofensivo. Getúlio, JK, Jango, Ulysses Guimarães e outros, jamais esconderam seus hábitos. A questão é outra, porém. Nada disso teria repercussão se o Governo Lula, este sim, não estivesse trocando as pernas. Seu governo perdeu sua identidade, sofre de amnésia dos seus compromissos públicos e tropeça a cada passo que dá na condução do país.

         Mas, pior ainda é o que este episódio revela: na ânsia de distrair a opinião pública dos descaminhos do governo e deste mais recente escândalo que foi a migalha infame dada ao salário-mínimo, Lula não demonstra nenhum equilíbrio, atenta contra as tradições de liberdade de imprensa e comete um ato covarde. As repercussões deste arreganho autoritário, estas, sim, serão péssimas para o nosso país. E aqui dentro, que jornalista se sentirá livre para dizer verdades que desagradem a Lula e ao PT? Quem expulsa um repórter do país não seria capaz de pedir a demissão de um jornalista brasileiro aos donos dos meios de comunicação, muitos dos quais se encontram, como todos sabem, na fila do BNDES, à espera de empréstimos governamentais?

         A verdade é que o Governo Lula, à medida em que vai fracassando a continuidade que pretendeu ser do Governo FHC, passa a representar cada vez mais perigos para as boas práticas democráticas e para as liberdades. Onde não funciona mais a propaganda vazia dos fome-zero oficiais, tenta-se semear a histeria contra os supostos “inimigos do Brasil”. Já foi com o Poder Judiciário, os aposentados, os servidores públicos, com o salário-mínimo, agora é com um simples jornalista. Os banqueiros, o FMI, os especuladores, estes, como se sabe, são todos nossos amigos. Muy amigos.

 

Leonel Brizola

Presidente Nacional do PDT

 

Informe publicado pelo PDT/ F.A.P.

O Globo, 5ª feira ,13 de maio de 2004.