Lula e Kirchner
O presidente Nestor Kirchner, da Argentina, foi eleito com apenas 21% dos votos; Lula com 61%. Kirchner não contratou marqueteiros como Duda Mendonça, nem andou lançando nenhum hambre cero portenho, nem prometeu qualquer espetáculo do crescimento. No entanto, depois de um ano no governo, segundo pesquisa recém divulgada pelo jornal Clarim, tem o apoio de 80% dos eleitores, assim mesmo em levantamento restrito a São Paulo, base política do petismo.
O que coloca os dois presidentes, que receberam seus países afundados na crise a que nos levaram as políticas neoliberais praticadas por Menem e Fernando Henrique Cardoso, em situações tão diferentes: o argentino cada vez mais respaldado e o brasileiro dia a dia mais desacreditado? E porque a economia do nosso vizinho, mesmo assolada por uma crise energética – conseqüência das privatizações de Menem, semelhantes às de FHC – cresce perto de 10 % ao ano e consegue reduzir o desemprego gigante que enfrenta enquanto, aqui, o nível de emprego cai e o PIB patina próximo de zero?
O exemplo da Argentina reduz a pó o argumento de que o governo Lula não teria outro caminho senão o de manter – e até aprofundar – o modelo neoliberal de saque às riquezas, ao trabalho e à produção do povo brasileiro. O governo Kirchner endureceu com o FMI, em lugar de aceitar e mesmo ampliar as regras que nos impunham, como fez Lula. O Banco Central argentino pratica taxas de juros reais quase quatro vezes menores que as brasileiras. A carga tributária é de 24%, contra os mais de 35% do Brasil. Os abusos das privatizações estão sendo investigados e as tarifas, contidas. Nem por isso a Argentina quebrou. Ao contrário, está encontrando em suas próprias forças a base para crescer.
No regime presidencialista, o governante é muito mais que um simples político ou administrador. Ele é o grande catalisador do sentimento nacional. Se ele é fraco, dócil e submisso aos poderosos, incompetente na administração e incapaz de apontar caminhos para o país, então toda a nação definha e se fragiliza. O presidente Kirchner, sem dúvida um progressista, não é um extremista ou um radical. Mas o povo argentino percebe nele a determinação de enfrentar interesses poderosos e a vontade de transformar o país. Governa com energia, bom senso e independência.
Seu governo pode ser, amanhã, bem ou mal sucedido. Mas o que o sentimento do povo argentino mostra, com o apoio maciço e crescente que recebe, é que, ao contrário do que ocorre com Lula, a população acredita que Kirchner defende os argentinos e a Argentina. É desta força, da força do povo e de suas, esperanças, e não dos grupos financeiros, do FMI ou do “mercado” que um governo precisa para mudar um país, para trazer justiça e desenvolvimento.
O apoio dos poderosos, conquistado à custa da submissão, da politicagem, da capitulação e da traição aos compromissos assumidos com a população, ao contrário, só enfraquece um governo. O governo Lula está hoje provando os frutos amargos de sua infidelidade. O espetáculo do crescimento não veio, o desemprego aumenta, os salários encolhem, a fome alastra-se, agravam-se as crises. Kirchner não seguiu Menem, como Lula, infelizmente, segue o modelo de seu antecessor. E o pior, o mais triste, é que o fracasso de Lula, por ser igual a FHC, prepara a volta do próprio Fernando Henrique.
Leonel Brizola
Presidente Nacional do PDT
Informe Publicado pelo PDT/ FAP
5ª feira, 27 de maio de 2004, Jornal O Globo


