O salário da infidelidade
O que separa o gesto do Presidente Getúlio Vargas, há exatos 50 anos, acolhendo a proposta de João Goulart, presidente do partido trabalhista, dobrando o salário – mínimo, desta vergonha deprimente praticada por Lula com o salário de milhões de trabalhadores e aposentados, não é apenas a grandeza moral de Vargas frente à frieza covarde do atual presidente. Mais do que infidelidade aos compromissos assumidos com aqueles que o elegeram, o que afasta Lula daquele estadista de meio século é a falta de visão social e das enormes potencialidades deste país.
A distância entre Vargas e Lula é maior, muito maior do que aquele salário quatro vezes maior, que os míseros R$ 260, com que o atual Presidente, um ex-operário, escarnece agora os trabalhadores. Esta distância é a que separa uma visão de soberania, de desenvolvimento e de justiça para o Brasil de um olhar conformado e cúmplice de um sistema que condena o nosso povo a sofrer cada vez mais e a se degradar na violência e na necessidade, enquanto o país mergulha na dependência, no atraso e numa crise que só se aprofunda.
Lula, por ambição e fraqueza, tornou-se cúmplice, porque capitulou docilmente a este sistema, que antes dizia condenar. Ele aceitou as regras que condenam à submissão e à pobreza. Tornou-se, assim, prisioneiro de uma lógica infame, a da recessão, do desemprego, da pobreza, do arrocho, do sacrifício dos aposentados como se fossem estes os caminhos do desenvolvimento. Tudo vai bem e não há crise para estas maria – antonietas da modernidade, que todos os dias se jactam de seus “sucessos” na economia, comemorando, já sem nenhum pudor, os aplausos do FMI, do Governo Bush e dos banqueiros internacionais.
Natural que os novos “militantes” de Lula batam palmas para seu governo. Jamais ganharam tanto dinheiro à custa do povo brasileiro. Apenas dois bancos iveram lucros de mais de R$ 1,5 bilhão só nos três primeiros meses do ano! Os grupos dominantes nunca tiveram governantes mais capazes de renegar tudo o que disseram antes para tornarem-se capitães-do-mato do sistema do sistema de espoliação imposto ao Brasil. O caradurismo é tanto que vem o Sr. José Dirceu dizer que é preciso ter “coragem” de tirar ainda mais dos aposentados e pensionistas, desvinculando do mínimo os seus parcos ganhos. Coragem era ele quem deveria ter, e confessar ao povo que ele e a direção do PT enganaram o povo brasileiro, praticando um verdadeiro estelionato eleitoral.
A população, que já estava perplexa com os rumos do Governo Lula, já mostra sinais de justa inquietação ante o comportamento daqueles em que, de boa-fé, tanto confiou. O Presidente já tem de se esgueirar-se para evitar vaias e não pôde sequer ir ao 1º de maio em São Paulo. As ruas, que o consagraram há menos de dois anos, estão condenando sua falsidade. Oxalá ele mudasse de rumos, mas nem isso parece mais possível, tantos e tão profundos são agora seus compromissos com os que se beneficiam do seu triste e surpreendente governo.
O povo brasileiro, que conservou no carinho de sua memória aquele Vargas que lutou e morreu para que o Trabalhador se emancipasse, há de lançar o anátema de seu desprezo àqueles que, 50 anos depois, traíram os sonhos e as esperanças desta Nação.
Leonel Brizola
Presidente Nacional do PDT
Informe Publicado pelo PDT/ FAP
5ª feira, 6 de maio de 2004, Jornal O Globo


