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Em defesa da Vale do Rio Doce

No dia 10 de abril de 1997 uma frente de esquerda congregando  partidos políticos e entidades da sociedade civil como a ABI, MODECON, OAB, fez grande comício na Cinelândia contra a privatização da Cia Vale do Rio Doce.  Na ocasião, Brizola pronunciou vigoroso discurso, que expressava sua revolta ante a entrega do valioso patrimônio público representado pela estatal. Seguem trechos do discurso:

 

“Estamos aqui como um só corpo. As nossas diferenças são inexpressivas perto do que nos aproxima, do que nos une. Só unidos poderemos cumprir com o papel que devemos representar em prol do povo brasileiro. Sempre que o povo se uniu, alguma coisa importante aconteceu. Foi assim na Revolução de Trinta, na Campanha da Legalidade e nas Diretas Já. Também isso ocorreu em 1950, quando Vargas uniu o povo de norte a sul, sem partido. É o que está agora se prenunciando.

 

O atual governo, além de entreguista, transformou-se em governo de escândalos. Eu, Leonel Brizola, não tenho nenhum respeito por Fernando Henrique Cardoso. Concentro nele toda a responsabilidade pelo que tem acontecido. Os estados, por exemplo, estão em dificuldades, tendo até que lançar mão da emissão de títulos que tomam outros caminhos. E tudo ocorre porque temos um governante fraco, desmoralizado. Fernando Henrique é um homem com grande capacidade de memorização, mas em detrimento do raciocínio. Transformou-se em um segundo Calabar. Calabar não foi um Judas ou traidor como o Marcello Alencar. Foi um traidor mais sofisticado. Esteve na resistência ao domínio holandês. Ante o compromisso dos holandeses de conceder melhor preço para o açúcar, ele se vendeu.

 

Acuso a todo o momento que posso, este governo, na pessoa de Fernando Henrique Cardoso. Na campanha, jamais falou que ia vender as estatais. Não encontro mais legitimidade em seu governo, e com ele, incluo o Congresso Nacional, cuja maioria de seus integrantes, dá cobertura legal a essa insensatez.

Só há um caminho para nós. É radicalizar a luta contra esse governo e todos os que o apóiam. Eles são unidos e politicamente desonestos. Estão lá em cima, se considerando donos de tudo. Para eles, as Forças Armadas, Exército, Marinha e Aeronáutica, não são outra coisa que força de sustentação para fazerem qualquer coisa. Não conseguimos imaginar que este país seja castrado, retalhado, e as Forças Armadas fiquem de braços cruzados. Eu vos afirmo que neste cenário, jamais imaginei, que no patamar a que cheguei nos meus setenta e cinco anos, teríamos um presidente que atua como um bobo alegre. Até desconfio de sua sanidade mental. ( ... ).

O que falta a nós não são análises. Há muita gente adormecida. São pessoas que não abriram janelas em suas mentes. É preciso esclarecê-las.

Quais são os nossos caminhos? O primeiro é o da união. Os que estiverem na intriga, atirando para os lados, estarão traindo a causa do povo brasileiro. A nossa união é a chave de todo o processo. Vamos nos unir para o desdobramento desta situação. Temos que impedir o ato de leiloagem e entregas indecorosas. Atrás de um ou outro empresário nacional, estão os conglomerados internacionais. Então digo aos companheiros, vamos em busca de caminhos. Todos os sindicatos, associações de todos os tipos, precisam arregimentar seus membros.

Quero vos dizer companheiros que não ficarei de braços cruzados. A minha mente só se preocupa com decisões criminosas como esta que atinge a Vale. Na atual correlação de forças, essa gente é capaz de bater o martelo e cometer este crime contra o povo brasileiro. Certamente aqui estão os observadores dos interesses estrangeiros. Que os representantes desses interesses fiquem sabendo que o povo brasileiro se convenceu de que estes atos são tão antidemocráticos quanto os cometidos pela ditadura. Estão apunhalando o povo brasileiro. Nós vamos lutar para anular tudo isto. Vamos lutar para por na cadeia todos eles. Não vou cruzar os braços. Vou tratar de assumir minha própria decisão. Esta camada que está aí é de traidores. São irresponsáveis, a começar por Fernando Henrique Cardoso que é um carreirista. É uma espécie de Gorbachev brasileiro. Gorbachev subiu de acordo com as estruturas do partido comunista da União Soviética. Era um narcisista. Acabou por assimilar a ideologia dos inimigos, mostrando-se sensível aos cafunés que faziam nele.

Éramos, com todos os defeitos e deformações no sistema de economia mista implantado por Vargas, a 8ª economia do mundo. Agora somos a 14ª. O que ocorre hoje é um processo de colonização. Vamos confiar. Se desenvolvermos nossa unidade, atingiremos o povão. Não podemos desacreditar nos destinos do nosso país. Essa fase vai passar.

Vamos em frente, unidos para superar esta fase cruel. Posso ter tido enganos em minha vida política. Mas jamais pratiquei atos contra o meu país e contra o povo brasileiro”.